segunda-feira, 30 de janeiro de 2012

Dodecaedro, Triângulo das Águas - (Nono Fragmento da Décima Terceira Voz)


(...)Mas primeiro prova da Terra. Depois, voa. Não aprendeste com Ícaro? Só não queiras
tocar o Carro de Apolo. Ah quanta ânsia sufocante de pureza. Quanta mentira adocicada. Lixo
gritarei na tua cara, pura merda. Merda fedida de quem bebeu demais na noite anterior.
Conheces bem a cor escura, o cheiro estranho de alcóol. Não me venhas com espiritualidades
transcendentais. Tenho mais nojo de tuas flores amarelas que de teu cu. Tua alma me importa
menos que o cheiro de teu suor. Espera - também-não-é-tudo-assim-escuridão-e-morte, já dizia
HH. Para de te debater, não vais aguentar. A mulher dos comprimidos já te olhou desconfiada.
A garganta dói, provei o que não devia. A cabeça me pesa, pensei o impermitido. Tens que te
movimentar no meio desses brilharecos. Tens que desmenti-los um por um. A cada dia
assassinar o pai, estuprar a mãe. Para de sonhar coloridices. Tenho asco de tuas fitas
coloridas, teus perfumes. Foi assim que vocês todos morreram antes do tempo. Foi assim que
eu não morri. Embora oco, estou no alto da torre, na Curva das Tormentas, as janelas abertas
para que entrem todos os demônios. Os anjos também.


Caio Fernando Abreu


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